O prodígio do baile funk revela as técnicas que fizeram dele uma sensação na internet para muito além do hype
No hot cue com as batidas mais aceleradas, com o microfone na mão sobre o tamborzão, travando loops que botam pra tremer até a câmera mais estável: pisque e você perde um dos movimentos do Ramon Sucesso. De fato, a única coisa mais veloz do que as técnicas do DJ e produtor brasileiro de 22 anos é sua capacidade de se tornar viral: ele ganhou destaque pela primeira vez em 2020, quando um vídeo dele tocando em seu quarto, em Nova Iguaçu, circulou no X. De frente a uma parede azul, Ramon aparece com seu notebook surrado e uma controladora Pioneer DDJ-400 cortando sem dó os vocais, martelando kicks nos botões e largando seus agora conhecidos backspins.
Ramon é também muito rápido ao falar, especialmente descrevendo suas performances que passaram a ocupar a internet nos últimos anos. "Eu não gostei daquele efeito tremido no primeiro vídeo [que postamos no X], mas pegou cem mil visualizações, aí a gente viu que tinha coisa ali", diz Ramon, enquanto come uma feijoada num restaurante clássico de Lisboa. Hoje, qualquer vídeo dele passa a casa das milhares de visualizações no espaço de poucos minutos.
Por isso, dizer que Ramon alcançou a fama rapidamente é até eufemismo; ele é o artista mais jovem de todos a ser destaque na The Art of DJing, seção em que o Resident Advisor investiga as técnicas dos maiores DJs do mundo. Emergindo das redes, Ramon chegou a solo europeu pela primeira vez em 2024, incluindo um show há muito esperado no Primavera Sound em Barcelona como parte do palco Boiler Room (que, talvez sem surpresa, viu a temperatura subir rapidamente com Ramon no toque).
Públicos que antes o conheciam apenas como uma imagem tremida e de baixa resolução na tela puderam, enfim, se certificar que ele faz jus ao hype. Olhos ávidos observando ou ao menos tentando observar como ele brinca com o pitch e modula o flanger muito além da mixagem tradicional—um estilo único, mesmo para quem está acostumado com o funk. E qual seu beat de funk favorito? "Bolha," diz Ramon, sem piscar, antes de gargalhar.
Não só no borbulhar ritmado no funk, algo que cativou a internet e as redes sociais, há também um outro apelo na arte de Ramon. Suas performances oferecem uma perspectiva vanguardista dos bailes que tomam favelas e subúrbios do Rio de sexta a domingo. Com raízes no hip-hop dos anos 80, no eletro, no freestyle e no Miami bass, entre outros, o funk se transformou há muito em uma forma única de música eletrônica brasileira que incorpora percussões da diáspora africana, design de som complexo e vocais únicos.

Família é um tema frequente na conversa com Ramon, com o funk colorindo as memórias de sua infância ao lado de seu irmão Ruan. Não há Ramon sem Ruan, e vice-versa. Sentados no restaurante, os dois parecem uma dupla dinâmica—Ruan é afiado e preciso, enquanto Ramon viaja mais na conversa, solta as histórias e as anedotas. "Eu me lembro exatamente do dia em que meu pai deu dinheiro a Ramon para comprar uma controladora de DJ, em 2019," disse Ruan. "Esse é nosso sonho, fazer pelos nossos pais o que eles fizeram por nós."
A tal controladora, uma Pioneer DDJ-400, foi a primeira a aguentar o estilo de tocar frenético do Ramon. "Teve um DJ que colou no estúdio em que eu estava uma vez que disse: 'Eu não sei como essa controladora aguenta você!'" ri Ramon. É algo que vai além dos frenéticos toques na MPC que, por um momento, fizeram do araabMUZIK um dos nomes mais requisitados da música eletrônica ou dos recortes que alçaram Fred again.. ao mainstream. Há poucos anos, a DDJ-400 deu lugar a uma XDJ-RR, um equipamento que segura com mais firmeza a pegada do DJ. Essa sua forma de tocar, de fato, continua a tradição de invenção dos primeiros DJs de funk do Rio, pioneiros como DJ Anderson, Phabyo DJ e Dennis DJ, que usavam samplers Gemini e toca-discos Technics com vinis do Volt Mix—as bases do funk.
Ao reconfigurar essas técnicas a sua própria maneira, Ramon também entra num rol de nomes de peso que mantêm o funk em constante evolução—um nível de inventividade que ultrapassa o título "Cara do Beat Bolha". Se o artista anda sob o peso do hype, também carrega a responsabilidade de uma linhagem de DJs. É merecido: seu estilo e técnica impressionantes não tem nada de comum. Muito pelo contrário. É como dizem por aí, Ramon Sucesso é o cara que está distorcendo a realidade.
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Eu nasci em Belford Roxo, mas sou de Nova Iguaçu.
Como você começou no funk?
Eu nasci em 2002 e, quando era mais novo, como todo mundo, eu tinha o sonho de ser jogador de futebol. Treinei na escolinha lá do meu bairro, mas não tinha muita oportunidade. Acabou que o tempo foi passando e passando…
E depois veio o funk?
Então, eu saí do futebol, comecei a trabalhar em um lava-jato e lá a gente ouvia bastante funk, só que nossos pais são da igreja, a gente ia pra igreja também. A gente escutava muito os canais de funk do YouTube e aí a gente decidiu criar um canal também para postar músicas de outras pessoas com nossas fotos – na época era essa a modinha. Esse canal tomou strike, caiu. Aí a gente criou outro canal, que também tomou strike. Criamos o terceiro canal, e meu irmão Ruan disse que ia desistir, mas eu falei que ia continuar. Então, em vez de usar o nome "Irmãos Sucessada", decidi continuar apenas como Ramon Sucesso. Isso foi por volta de 2019, quando eu tinha 16 anos.
Você ainda estava trabalhando no lava-jato naquela época?
Sim, e também trabalhei como ajudante em campanhas políticas durante as eleições. Comprei meu primeiro laptop por 300 reais. Ele tinha um HD ruim, o teclado também era ruim e eu tinha que usar um mouse porque o touchpad não funcionava. Baixei o Virtual DJ e comecei a brincar com ele. Eu ia trabalhar e, se não tivesse carro para lavar, ficava lá brincando, treinando. Um dia, alguns amigos chamaram a gente pra tocar numa resenha no bairro. Cheguei lá, levei meu teclado e mouse e comecei a tocar.
Você já estava fazendo os movimentos e esses truques que você faz hoje?
Não. Eu ficava apenas passando de uma música para outra. Eu queria muito uma controladora. Alguns meses antes, minha mãe tinha descoberto que a gente tinha um canal de funk no YouTube e perguntou se era isso mesmo que a gente queria. Eu disse que sim, e ela disse que ia dar um jeito. Um dia, minha mãe disse ao meu pai para checar a conta do banco dele, e tinha R$ 4 mil reais lá — não sei de onde! Aí ela falou: "Vai sacar esse dinheiro agora!"
Qual controladora você comprou?
Uma Pioneer DDJ-400, usando o mesmo laptop. Era Windows com Virtual DJ. No dia seguinte, minha mãe entrou na conta e tinha mais R$ 3 mil reais. Ela comprou roupas para mim e uma case para a controladora.
O que mais mudou na sua vida através da música?
Coisa que a gente passava e que hoje não passa mais. Quando meus pais me deram aquele dinheiro, meu pai estava desempregado. Meu sonho é construir a casa dos meus pais do jeito que eles querem, depois comprar um carro para eles — fazer o mesmo que fizeram por mim quando eu tinha um sonho. Quando meus primeiros cachês começaram a chegar, era tipo R$ 250 por show, as coisas começaram a rolar.
Vamos imaginar que você está se preparando para um show. Como você começa a pensar no seu set?
Anteriormente, antes dos shows, eu praticava — mas apenas no dia anterior. Hoje em dia, não me preocupo muito em praticar. Já sei o que vou fazer lá em cima.
E a seleção das músicas?
Algumas eu baixo, outras eu produzo. Ajusto o BPM de cada uma pra sincronizar certinho, tá ligado? Em todo lugar que vou tocar, sempre penso em fazer algo diferente. Se estou tocando na boate, toco o que as pessoas gostam na boate. Se estou tocando no baile de favela, eu vou agradar ao público da favela.
Qual é a diferença entre tocar num baile de favela e na boate?
O baile de favela é mais sobre uma parada de um ritmo de favela. Já na boate, já não é esse ritmo. Na boate, já é uma parada que está estourada na rua, na pista, tá ligado? Tipo [músicas do] MC Kevin o Chris, uma parada que já está estourada na rua.
Seu set no Boiler Room foi um dos primeiros shows internacionais que você fez. O que você pensou ali?
Por que que eu fui chamado, tipo... Através do meu vídeo, eu fui chamado pelo que eu fazia no vídeo. Eu entreguei ali o que eu sempre fiz no vídeo. Não mudei meu repertório, não mudei nada não. Às vezes tem coisas que eu invento ali na hora de fazer que eu nunca fiz e acaba dando certo, às vezes acaba dando errado porque eu não treino em casa. Mas aí sempre é risco.
É claro que você gosta de correr riscos. Foi isso que te destacou.
Sim, por exemplo, nos vídeos da Sexta dos Cria, se eu ficasse na mesma mesmice ali do que eu faço em todos os vídeos, acho que não ia se destacar muito, mano
.

Mano, é uma parada que nem eu sei. Foi um meme que criaram ali, botaram o nome Sexta dos Cria para os vídeos que eu postava no X nas sextas-feiras e o bagulho estourou — aí eu comecei a usar aquilo ali a meu favor.
Qual é a história daquele primeiro vídeo? Aquele em que você está vestido com a camisa do FC Barcelona.
Eu costumava praticar muito em casa, então Ruan começou a gravar vídeos de mim tocando para postar como status no WhatsApp. Ele me disse para postar no Twitter [agora X], então eu fiz. Depois ele colocou o telefone ao lado do alto-falante para ver como ficaria na câmera. Quando isso aconteceu, ele disse: "Parece legal!" Mas eu não gostei. Postamos no Twitter e teve 100.000 visualizações. Claramente havia algo ali.
Você segue uma longa tradição de DJs do Rio, que hoje também tem nomes como Zullu, Crazy Jeffs, FP do Trem Balada e Cabelão do Turano. Como você vê seu lugar entre eles?
Eu era muito fã deles, hoje em dia são todos meus amigos, tá ligado? Eu comecei a tocar DJ porque eu era fã de um cara que hoje em dia é muito amigo meu e me ajudou muito, o DJ Denilson do Chapadão, que hoje é conhecido como DJ Denilson o Clínico. E o DJ Ulisses Coutinho também me ensinou muito sobre produção.
Tocar como DJ eproduzir tem a ver pra você?
Tem muita gente que é DJ e não produz, tá ligado? Acho que depende. Se você tiver interesse em aprender a produzir, aprimorar o seu trabalho, você vai aprender a produzir, tá ligado? Agora, se você tem interesse só de tocar a música dos outros, você vai viver só de show.
Quando você produz, você está pensando na hora em que você vai tocar como DJ?
No Rio, tem muito nome de baile nas músicas, e eu faço isso também. Mas se eu quiser uma música que rode em todos os bailes, eu preciso fazer algo neutro. Vou fazer um som que não fala do meu baile, pra tocar em todos os bailes, tá ligado?
Como sua prática mudou de 2020 para 2023?
Aprendi mais técnicas, especialmente no hot cue. Na 400 eu não arriscava muito.
Você usa os pads do hot cue como um tambor, mesma coisa com o botão de loop. Por que?
Depende muito do momento. Como é que eu tô vendo que o público tá interagindo, aí uso o loop pra falar umas paradas pra trazer o público pra mim ou uso pra virar a música, tá ligado?
É uma parada diferenciada, que quase ninguém faz no funk do Rio e hoje em dia fazem muito.
Qual é o beat de funk que você mais gosta?
Bolha!
Por quê?
Quando eu comecei, já existia o Beat Bolha. Tinha o Ulysses Coutinho, o Careta e o Miltinho, que é São João de Meriti. Eles começaram com esse beat. Mas quando estourou meu primeiro vídeo, foi com o beat bolha. Nessa época, esse beat ninguém tocava mais. Aí eu fui entrar em contato com ele e falei: 'posso botar meu logo?' Aí ele falou: 'você é nosso, pode botar'. E aí quando eu aprendi a produzir, comecei a fazer só bolha também. Tá ligado? E aí começaram a me chamar de O Cara do Beat Bolha.
E por que faz tanto sucesso esse beat?
Porque parece uma bolha mesmo! Tem até um vídeo com o Patrick do Bob Esponja que a gente usa em que ele está falando da bolha.
Você começou a fazer o hot cue desse jeito, sua marca registrada, no Virtual DJ? Ou já tinha mudado para o Rekordbox quando começou a fazer isso?
Quando eu troquei pra essa controladora, a XDJ-RR, em 2022.
Seu cachê fiicou maior por essa época?
Não. Eu assinei contrato com a empresa logo quando comecei, mas a empresa me segurou. Eu parei de lançar vídeo, parei de lançar música porque se eu lançasse, eu ia tomar multa. Então eu fazia 12 shows por semana por 800 reais em 2020. O cachê era baixo, mas somando na semana dava um valor maneiro. Assinei contrato com a empresa porque falaram que ia botar meu cachê mais alto e ia fechar bastante show. Entrei pra empresa com um mês fechado de show, mas aí caiu tudo por causa da pandemia e fiquei quase três anos sem show
Mas você nunca parou de treinar.
Não, mas foi aí que eu queria mudar de controladora. Meu notebook travava, às vezes no show eu ia jogar uma música pra um lado e pro outro e ficava um tempão esperando, e a música travada.
Não consigo imaginar você fazendo o que você faz, com a velocidade que você faz, com um computador lento. Como que era isso?
Eu tinha que ficar esperando.
Você também tem uma vinheta de introdução, certo? Como é isso? Isso das vinhetas é algo bem comum no Rio.
Os locutores a gente chama de voz de peso. Eu fiz seis vinhetas pro Boiler Room e paguei R$ 150 para o locutor.
Como foi o Boiler Room? Eu estava lá e achei engraçado aquela hora antes de começar quando a apresentadora estava falando em espanhol com você e você gritou: "Brasil, porra!"
Eu não tava entendendo nada que ela tava falando!
Como foi essa experiência?
Muito foda! Público foda! Eu prefiro mil vezes tocar num palco como aquele do que num palco normal. Ali tinha muito calor do público.
Cerca de 60. Eu uso dois USBs. Sempre com sync [nas mesas].
Quais efeitos sonoros você gosta de usar mais nos seus shows?
Sou viciado em eco, dub eco e flanger. Uso muito o eco para transições de faixas. Eu tiro os graves, uso o filtro, aperto o eco e travo a música. Aí faz esse efeito.
Tem um DJ, o Black Coffee, que usa um efeito semelhante, mas com delay.
Eu sei! O pitch eu uso pra mixar, eu mudo o pitch pra deixar a voz mais fina.
Por que você não usa fones de ouvido?
Se você reparar, os DJs de hoje em dia tocam as mesmas músicas na mesma ordem em todos os shows. No meu show, eu nunca faço isso. Podem ser as mesmas músicas, mas não na mesma ordem. Misturo tudo.
Você muda muito o BPM nos seus sets?
Tô sempre no 140 travado. Eu consigo falar melhor sobre o beat. Se tiver a 130, eu não tenho essa percussão toda, tá ligado?
Ruan: A parte mais foda do Boiler Room é quando ele pega o microfone e solta "O Baile da Penha tá o Bicho" [da música "Toda Hora", do MC Cabelinho].
Ramon: Eu até arrepio só de lembrar… Olhei pro lado, minha toalha estava lá, botei a toalha nas costas. Essa toalha fica na frente do DJ, mas não dava pra botar ali na frente.
Ramon: Faltou a opção de fumaça ali naquele palco. O Ruan sempre sabe quando soltar a fumaça no palco.
Ruan: Ele faz o backspin e quando entra o grave, eu já estou pronto pra soltar a fumaça.
Vocês são como Tico e Teco. Um já conhece o movimento do outro.
Ramon: É por isso que ele cuida dos meus shows.
Ruan: Os outros membros da equipe cuidam de outra coisa, gravação de vídeo. Aí eu monto a controladora, né. Na Mamba Negra eu usei também a fumaça.
Como foi a experiência de tocar nessa festa? É uma festa muito importante no Brasil e na América Latina.
Foi uma experiência muito foda, mano, um dos melhores shows que já toquei.
Aliás, no Rio, como é isso de que cada bairro tem um beat? Um dia a [DJ e produtora] Iasmin Turbininha me disse uma vez que, no Rio, cada bairro e favela tem seu próprio beat, feito por DJs locais. Me explica um pouco isso.
Ramon: O funk do Rio é Baixada Fluminense, é Caxias. Não tem como. Se tiver um baile, e tiver DJ do Chapadão, DJ de Caxias, DJ de Nova Iguaçu, você vai ver: beat 130 cravado, depois vem 140, tamborzão, beat box, beat latão. Pô, os outros DJs ficaram até tontos na Roda de Funk em que a gente competiu.
Sim, fomos com nossa equipe de São Gonçalo. E há essa rivalidade entre São Gonçalo e Rio, dois lados da ponte Niterói. Fomos para uma batalha de DJs na Roda de Funk e outros DJs começaram a tocar músicas de funk que estavam no rádio – basicamente músicas pop. Um DJ de Caxias tocou uma música muito popular, "Mina Mercenária", e a galera foi à loucura.
Sim, a gente foi com a nossa tropa de São Gonçalo. E tem essa rivalidade de São Gonçalo com o Rio, dois lados da ponte. A gente foi pra um duelo de DJ na Roda de Funk. Os outros DJs começaram a tocar música de funk que tocava na rádio. Aí um DJ de Caxias botou uma música muito estourada, "Mina Mercenária", e a galera foi a loucura.
Vocês ganharam a batalha?
Né segredo!
Tem DJs que veem o DJing como cozinhar. Tem outros que falam que é como peças de Lego. Como você vê isso de tocar como DJ?
Toda vez que eu vou tocar ali na controladora, parece que eu vou descontar meu ódio ali, tá ligado? Parece que eu vou descontar meu ódio ali, eu me transformo. Quanto mais calor, pingando de suor, mais forte essa sensação, é como um exercício de cardio.
Pra fechar: pra onde o funk vai levar o Ramon no futuro?
Eu quero é dinheiro no bolso. Quero dar uma casa para minha mãe, ter minha própria casa, dar um carro para meu pai e ter meu próprio carro também. É isso. Viver do que a gente plantou.
