Quarteto de formação multifacetada comanda a festa que, há três anos, vem sacudindo as pistas da cidade

Carlos Albuquerque

22/03/2014 - 08:00 / Atualizado em 22/03/2014 - 08:40

RIO - O ar condicionado do Fosfobox parece não dar conta. São 3h de sábado, e a pista do clube de Copacabana está lotada. O calor e a umidade fazem com que os corpos quase se grudem a cada contato, a cada inevitável esbarrão. Na cabine, onde brilha um logotipo avermelhado na forma de W, o DJ mineiro Nedu Lopes, convidado da noite, mixa com precisão uma música atrás da outra, passando por versões de temas de artistas como Cutty Ranks e Dawn Penn, oriundos do reggae. Mas assim que ele dispara os primeiros acordes de “Grizzly”, da dupla britânica Nu: Logic, com sua batida peso-pesada e sua marcante linha de baixo sintetizada, a coisa realmente pega fogo. E quando entra o break, épico, antes da virada que torna a música ainda mais esmagadora, a casa vai abaixo. Como se transformados no poderoso e ameaçador urso que dá nome à faixa, todos urram ferozmente — desde o garoto com chapéu florido enterrado na cabeça às três meninas de sandálias rasteiras, que dançam juntas, fazendo passinhos de funk. Mãos são levadas para cima. Algumas pessoas giram a cabeça e batem os pés no chão, aumentando ainda mais o barulho. O clima é de catarse coletiva, como se fosse um show de heavy metal ou de hardcore. Mas essa é a Wobble, a festa eletrônica mais rock and roll da cidade.

Com três anos de vida, recém-completados, tocada e produzida pelos DJs Rodrigo S, Fabio Heinz e a dupla Marginal Men (Pedro Fontes e Gustavo Elsas), a Wobble é o chamado talk of the town, reflexo de um diálogo inovador travado pelo quarteto com um público que não parece ter muito mais que 20 anos de idade, e que compõe os dez mil seguidores da festa no Facebook. Longe das afetações que se tornaram comuns em alguns eventos de som eletrônico na cidade — tomadas por poseurs, empoleirados em suas áreas VIPs —, é essa turma, despojada, pé no chão, que comenta e frequenta as diversas edições feitas pela Wobble, uma festa independente, que consagra gêneros bem próximos do funk carioca, como o dubstep e o trap, e que se fez no boca a boca virtual.

— Acho que sem as redes sociais não teríamos a Wobble como ela é hoje. O Facebook é nossa principal mídia e ferramenta de divulgação — conta Rodrigo S, 34 anos, que trabalha com videografismos e animação há mais de uma década, e está finalizando o curso de Comunicação Social. — Temos até uma comunidade dentro da comunidade, o Wobble Crew, com 600 integrantes, superativos, que repercutem a festa e geram um conteúdo próprio. Não poderia ser diferente, até porque temos um público muito jovem, conectado, ligadíssimo, que já ouvia esses sons na internet e até em videogames, mas que não encontrava no Rio uma festa nesse formato.

Esse é o perfil do público que vem lotando os eventos da Wobble, em clubes e ao ar livre (uma nova tendência que a festa ajudou a fortalecer na cidade), por onde já passaram artistas internacionais como Diplo, Mala, DJ Craze, Addison Groove, Hatcha e Zed Bias, nomes facilmente encontráveis na escalação de qualquer grande festival na Europa ou nos Estados Unidos, além de craques locais como Marky e Bruno Belluomini. As celebrações do aniversário da Wobble vão seguir em alto estilo, no próximo dia 12, na Usina, ex-The Week, com a presença dos americanos Machinedrum e DJ Rashad.

— Nós começamos a trazer DJs estrangeiros em 2012, bem devagar, e conseguimos, aos poucos, fazer conexões com produtores na Argentina e no Chile, o que ajuda muito na hora de fechar os contratos — explica Pedro Fontes, 32 anos, que trocou os estudos de Economia pela carreira de produtor de eventos (foi promotor do clube LovE, em São Paulo) e musical (com lançamentos pelo renomado selo Renegade Hardware). — Agora, que já temos mais cancha nessa área, estamos conseguindo puxar as turnês a partir do Rio, já que o boca a boca entre os DJs lá fora também é grande. O Hatcha, por exemplo, disse que a festa em que tocou, na rua, na Vila Mimosa, foi uma das melhores da vida dele.

O Marginal Men, duo que une Pedro e Gustavo Elsas desde 2012, é mais uma das conexões criadas depois que Rodrigo S disparou um e-mail, em 2011, para um grupo de amigos, sugerindo a criação de uma festa de dubstep, então um ritmo ainda restrito ao underground — e que hoje pode ser ouvido até mesmo em um comunicado no site da Casa Branca.

— Antes de me envolver com a noite, eu tinha um selo de punk e hardcore, Oxenti Records, que já trouxe algumas bandas internacionais para tocar no Rio — conta Gustavo, 26 anos, formado em Ciências Sociais e integrante do celebrado grupo de fotógrafos do site I Hate Flash. — É engraçado porque diversos amigos meus, que vieram também do universo hardcore, hoje curtem a atmosfera rock da Wobble.

Menor em estatura, mas não em importância no quarteto multifunção que comanda a festa, Fabio Heinz foi quem pilhou Rodrigo para que enviasse o tal e-mail que resultou na formação da Wobble. Hoje, atua na festa como produtor, mestre de cerimônias e DJ.

— Fiz minha estreia na pista principal na sexta-feira passada — conta Fabio, 27 anos, formado em Cinema e que trabalha com marketing digital. — Fiquei um pouco nervoso no começo, mas depois curti. Afinal, a Wobble é uma festa horizontal. Os DJs são tão importantes quanto o público. Todo mundo está junto nessa onda.

O sucesso da festa e dos seus integrantes — o Marginal Men acaba de lançar sua primeira música, “Shake that crack”, enquanto um set recente de Rodrigo S já tem mais de 12 mil “plays” no soundcloud — não tem passado despercebido por quem vem, há tempos, acompanhando a movimentação nas pistas cariocas.

— A Wooble e sua equipe estão entre as melhores coisas que aconteceram na noite do Rio em muito tempo — conta Cabbet Araújo, há dez anos à frente do Fosfobox. — São um retrato perfeito dessa nova geração, curiosa, interessada e ativa, sem pose ou afetação.